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« Homme libre, toujours tu chériras la mer ».
(Charles Baudelaire)
O mar…sob todas as formas
Evocando o espaço geográfico e uma das referências culturais mais relevantes de Portugal, o número inaugural de Carnets, Revue électronique d’Etudes françaises, revista apoiada pela Associação Portuguesa de Estudos Franceses (APEF), propõe-se celebrar o mar…sob todas as formas.
Espaço de circulação simbólica entre culturas, o mar foi, desde sempre, testemunha ou actor da aproximação enriquecedora ou do afastamento definitivo de quantos seres e civilizações.
O período romântico é fértil na pintura de desastres assustadores ou de paisagens marítimas sublimes, tendo mobilizado o imaginário de pintores, poetas, jornalistas ou políticos que o retrataram com emoção e que, a partir dele, desenharam projectos grandiosos.
Sob o brilho dos jogos de luz impressionistas que despertam, pelos seus reflexos subtis, a nossa sensibilidade, ou envolto em atmosferas simbolistas que nos convidam, desafiando os limites do dizível, a uma outra experiência do real que privilegia, simultaneamente, o imperceptível, o mar, continuando a salvaguardar os seus segredos num mundo em que o desconhecido parece já não ter lugar, não cessa de inspirar artistas, homens de letras, cientistas ou ecologistas.
Insistindo em penetrar os seus enigmas ou sob o encantamento dos seus abismos misteriosos, todos nós, um dia, interrogámos o mar na busca de respostas para as nossas inquietações. Alguns nele se aventuram na demanda de belezas inimagináveis, seduzidos por tesouros inesperados ou lucros imprevisíveis. Outros ainda, atentos vigilantes, zelam pelo seu equilíbrio e natural diversidade biológica., preservando-o de eventuais ameaças.
Enquanto revista temática, Carnets deseja no seu primeiro número estabelecer pontes entre campos de investigação aparentemente distantes, em que o mar, espaço real ou imaginário, espaço de desejo ou lugar de assombro, permita evidenciar uma frutuosa complementaridade.
Mantendo a especificidade de cada perspectiva de análise, o cruzamento de olhares que aqui se postula, de proveniências várias, sobre o mar - espaço sublime de liberdade, ora conquistada, ora perdida -, proporcionará um deleitável encontro, estimulante decerto, entre abordagens inovadoras de um tema inesgotável e sempre actual, em variados contextos disciplinares: das letras e ciências humanas às artes plásticas, ao cinema, à coreografia e à música; das ciências às tecnologias de ponta; da reflexão socio-económica às políticas de desenvolvimento dos recursos naturais e às políticas de migrações.
O número inaugural de Carnets procura estimular novos espaços de investigação e de comunicação dessa investigação, fiel à ideia de viagem frequentemente associada aos carnets que definem o título desta publicação; fiel também ao movimento que caracteriza, em permanência, os oceanos, e que nos interpela, incessantemente, seja pela contemplação ou experiência directa do mar, ou pela descrição que outros dele fizeram e que gostaríamos de partilhar, por nossa vez, através de uma leitura pessoal, com os leitores e colaboradores de Carnets.
Assim, este número pretende-se aberto a espaços intersticiais ou comparatistas que ganham contornos na fronteira de novas expressões de sensibilidade e de inteligência do mundo globalizado que é o nosso, mas cujo processo constitutivo, do qual todos somos herdeiros, evoca os sulcos rasgados pelos navegadores ; um vasto universo que partilha, com todas as línguas do mundo – a (ou as) língua(s) francesa(s), e o mar…sob todas as suas formas e maneiras de dizer... |
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